Anunciado o alargamento a todas as unidades de saúde públicas do recurso à medição biométrica, como medida de controlo da assiduidade e pontualidade dos profissionais de saúde, a Ordem dos Médicos (OM) vem lamentar as consequências que tal medida pode ter na produtividade(!), com prejuízo dos próprios utentes. Qualquer aluno de gestão do primeiro ano sabe que um controlo que provoca rigidez diminui a produtividade, diz o bastonário da OM, Pedro Nunes, acrescentando: Se começasse ao meio-dia e soubesse que poderia terminar às três, operava e compensava no dia seguinte.

Dispenso-me a fazer comentários sobre a produtividade, até porque o primeiro ano da faculdade já vai distante. Mas há uma palavra, nas declarações do bastonário, que me reteve a atenção: compensação.

Mas como diabo alguém pode fazer essa compensação, com algum rigor, sem um mecanismo de controlo eficaz? Como é possível verificar o número de horas efectivas de trabalho de milhares de profissionais, em centenas de estabelecimentos, sem este mecanismo? Ou o bastonário acha que o controlo dessa compensação deve estar sob a alçada exclusiva da consciência individual de cada médico? Provavelmente.

É que, fica muitas vezes a ideia que alguns médicos usam e abusam dessa compensação, usando critérios que servem apenas as próprias conveniências pessoais e, mais grave, desrespeitando e ignorando os interesses dos utentes dos serviços de saúde. É esta ideia, mais ou menos generalizada, que torna imoral a manutenção do estado actual e obrigam à implementação deste mecanismo.

Julgo até – mas, poderei estar errado – que se poderá continuar a fazer a compensação – dentro de certos limites – a que o bastonário alude, cabendo a cada unidade de saúde a sua gestão e controlo. O que mudará é que se ficará a saber, com rigor, se as compensações estão a ser correctamente efectuadas ou se existe algum débito ou crédito na respectiva conta-corrente de cada profissional.

Certamente que nem o bastonário, nem qualquer médico, se oporá a que se faça este apuramento. Com certeza, muitos deles já terão “doado” muitas horas de trabalho, sem a devida compensação. Ou não é assim?