Lentamente, voltamos à normalidade. Em breve, os jornais, os comentadores, as televisões, os “líderes de opinião”, os “bloguistas” esquecerão o referendo – pelo menos até iniciar-se a discussão da lei no parlamento – e voltaremos à realidade. A economia continua amorfa e o país na cauda da União Europeia.

Como balanço do referendo,  julgo que, quer na campanha como no pós-resultados, os portugueses demonstraram uma melhor cultura democrática. Mesmo a abstenção – num nível bastante elevado, apesar de menor do que no anterior referendo – parece-me mais fruto do dilema que a questão impunha a cada um, do que do desinteresse pelo tema ou pelo instituto do referendo.

Gostei de várias intervenções no rescaldo dos resultados. Uma especial referência para a do Primeiro-ministro, José Sócrates. Equilibrada e conciliadora. Para mim, é cada vez mais uma agradável surpresa e, se as legislativas fossem hoje, contaria com o meu voto.

Aguardemos agora pela Lei que, pessoalmente, espero que se mostre um instrumento eficaz para combater esse flagelo que é o aborto. Apesar de ter votado Não – ou talvez por isso mesmo – espero que daqui a 10 anos possamos dizer que a nova lei tornou o aborto clandestino residual, reduziu o número global de abortos e permitiu às mulheres o acesso a aconselhamento e aos meios que lhes permitiram tomar, em plena liberdade, a sua escolha.

Por último, espero que ninguém encare este referendo como uma chegada, mas sim como uma partida!