A constituição de José Veiga como arguido, no âmbito da investigação da transferência de João Vieira Pinto para o Sporting, em Julho de 2000, é uma história longe de se encontrar totalmente esclarecida.

No entanto, pela reacção dos vários protagonistas envolvidos, há alguns pontos que merecem reflexão:

1- José Veiga parece ter sido surpreendido pelos acontecimentos e, ainda atordoado pela “paulada”, começou a disparar em direcção do Sporting e dos seus dirigentes. Provavelmente errou o alvo – aproveitando para agravar mais a sua situação – ao não conseguiu identificar o autor do “ataque”.

2- Isto leva-me a uma segunda questão: quem foi o autor do “ataque”? Dizem os analistas que, falando-se de um crime de burla agravada, a iniciativa – que, neste caso, teve a forma de carta anónima – só pode ter origem no(s) prejudicado(s). Então, quem pode ter saído prejudicado desta situação? 

  • Podemos excluir o Sporting que, em comunicado oficial, já disse que todas as importânias pagas decorriam das obrigações contratuais assumidas, tendo as mesmas sido efectuadas no cumprimento exacto do contrato. 

  • O estranho silêncio de João Vieira Pinto, aliado à demora em interpor a acção, parece afastar a possibilidade de ser JVP o lesado. Para além disso, não teria muita lógica que, sentindo-se lesado, JVP apresentasse a denúncia por carta anónima.

  • José Veiga – que , tal como JVP, nunca se queixou de não ter recebido o dinheiro do SCP – é, por enquanto, o único arguido no processo, parecendo afastado do lote de possíveis lesados.

  • Então, quem é (são) o(s) lesado(s)? Talvez a explicação esteja na vida pessoal de JVP. Com um divórcio litigioso em curso, as questões patrimoniais são sempre escrutinadas. É aqui que entra em cena Carla, ex-mulher de João Pinto. Terá sido ela a autora da carta anónima? Sentir-se-á ela lesada no negócio em causa? Se sim, porquê?

3- Imaginemos este cenário: na realização do negócio, para evitar pagamento de impostos, JVP solicita (através do seu representante, JV) o recebimento do prémio de assinatura através de uma empresa com sede fora do território português. Desta forma, JVP recebe o seu dinheiro, possivelmente paga a comissão que caberia a JV e seguem  as respectivas vidas. A vida pessoal de JVP sofre alguns contratempos, envolve-se num divórcio litigioso e a ex-mulher, descontente com a compensação patrimonial que lhe cabe, “levanta a lebre”: onde para o dinheiro desta transferência? Tudo isto são suposições. No entanto, explicavam o silêncio de JVP e a denúncia anónima.

4- Quanto às suspeitas que JV lança sobre os dirigentes do SCP, provavelmente não passam de uma fuga em frente. Porém, apesar de confiar como sportinguista nos dirigentes eleitos do meu clube, não sou adepto de “seguidismos” que, não raras vezes, nos toldam a razão. Por isso, que se investigue e se encontre todos os culpados, se os houver. Se algum dos seus dirigentes estiver envolvido em negócios menos claros, o Sporting só tem a ganhar com o apuramento de toda a verdade.

5- Por último, uma questão: porque é que a Justiça só actua depois dos envolvidos deixarem de ser dirigentes dos clubes? Será só coincidência?